quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Para minha filha. Para que você saiba que a espera é desde tanto. Que talvez eu tenha dito poucas palavras desde que você virou organismo que respira dentro do meu, sangue que compartilhamos, pulso, forma, pequena pessoa em movimento de vida. Quando você se tornou existência, um pouco eu emudeci. Acho que emudeci de grandiosidade e incompreensão. Por tentar apreender o significado de um fluxo tão natural quanto impalpável, do tamanho do que não cabe no entendimento. Eu inteira dilatando, você crescendo, você me crescendo, você mexendo nas cores do meu corpo, na minha respiração, no meu estômago, nos lugares, nos estados, nas expectativas, nos choros, nos sustos, nas ternuras, nos medos, nos tempos, nos pesos, nos apegos, nos espaços abertos pra te receber. Seu rosto surpresa e você tão presente, tão guardada, tão revelada em cada empurrão, soluço, onda, passagem, em ser, você que quase escondida já é como se sempre tivesse sido, você que tudo tão rápido. Eu olho pra fora e espero que você sempre simplesmente seja. Que os desejos que te preencham sejam os seus, e que eu saiba te olhar muito e profundamente. Que do mundo às vezes tão diferente da sua potência de vida surjam mobilidades, germinação de cores, que o mundo respire melhor para e com você, que vem na intensidade que é ser mulher. Aqui, presente e futuro se fundem numa dimensão mista. O que será já está sendo, enquanto hoje acontece o que é, ao mesmo tempo, projeção. Vio, Tita, é tudo novo, eu nunca soube, você talvez saiba, eu que consigo nomear tão pouco me divido em muitos feixes de sensações translúcidas. Você e eu só temos a certeza de que em breve seremos o que ainda nem alcanço, seremos olhar, toque, cheiro, seremos novo ciclo. E outros. E infinitos. Quando você souber que é a hora, vem mergulhar, Violeta.
                       

domingo, 14 de maio de 2017

Na metade de um caminho que em seguida será infinito.........................
 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Agigantada. Existir começa tão cedo. Existir começa antes das palavras.
   

sábado, 8 de abril de 2017

Hoje nós dançamos - e falar assim no plural nunca fez tanto sentido. Dançar hoje era continuar-a-estar. Lembrar no corpo o porquê. Não só por hoje, e não é pra falar de hoje e só, é por tudo, pelo que se quer desmontar por fora, pelo que se tenta esfacelar, e aí cada encontro é maior, cada poro aberto os nossos e os outros, cada um, cada mais um, cada outro. Terminou com poesia forte pausa silêncio. Pro pequeno desconhecido ir e rir e girar no espaço vazio, inteiro ele grande de tão pequenininho, e então já não terminava de novo, pra continuar.
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Hoje foi lindo. O Ato pelo Descongelamento da Cultura agregou todas as tantas e outras e múltiplas cores que João Dória, André Sturm e todo tipo de gente reacionária pensam que podem tornar acinzentadas. Foi força, contundência, arte, alguns milhares de trabalhadores da Cultura e um canto espalhado e firme que não cessou, enquanto corpos cenas performances fogo tambores estalavam suas presenças em uníssono. É pela CULTURA PÚBLICA E GRATUITA QUE É DIREITO DO POVO E DEVER DO ESTADO, por uma política pública de verdade, que não mate aquilo que vive com ímpeto, que não​ tenha a ingenuidade (pra não dizer perversidade estratégica muito bem arquitetada) de achar que a Cultura de um povo pode ser denegrida, subestimada, sucateada ou transformada em estratégias falidas de marketing. Estamos só começando.

#DescongelaCulturaJa
Frente Única da Cultura
   

sexta-feira, 24 de março de 2017

POR QUE É UM GOLPE E UM DESMONTE O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM OS PROGRAMAS DE FORMAÇÃO PIÁ E VOCACIONAL?

Como artista que trabalhava em um destes Programas (no caso, o Vocacional), entendo (assim como as milhares de pessoas envolvidas neles direta e indiretamente) por dentro seus significados e modos de existir. Mas para quem não conhece, cabe contar um pouco de como as coisas estão acontecendo. Desculpem pelo texto longo, mas mesmo em tempos de síntese, algumas histórias precisam ser contadas com um pouco mais de calma.

Até 2016, mais de 300 artistas desenvolveram processos artístico-pedagógicos com mais de 8000 cidadãs e cidadãos em todas as regiões da cidade de São Paulo (em CEU's, bibliotecas, centros culturais, teatros municipais), por meio de dois Programas de Formação fundamentais na cidade: PIÁ e Vocacional. Ambos são públicos e gratuitos para a população.

Um dos pilares dos dois programas é a continuidade: os processos se relacionam de uma turma pra outra, os artistas-orientadores e artistas-educadores podem permanecer nos mesmos equipamentos por mais de dois ou três anos para criar vínculo e aprofundamento com as turmas, com os grupos, com os espaços e com as regiões. Todo o trabalho é articulado em equipes e, com grande parte da equipe em continuidade, é possível dar sequência a projetos e processos desenvolvidos de um ano pra outro e ao longo dos anos.

O Programa Vocacional é voltado a interessados a partir de 14 anos, sem limite de idade, sem pré-requisitos a não ser: desejo de estar, refletir, criar, relacionar-se, criar articulações, existir num espaço de ação. São orientações em teatro, dança, música, artes visuais e literatura, além de coletivos de estudo e ação interlinguagem. No último ano, por exemplo, grupos que relacionavam artistas-orientadores e vocacionados da cidade inteira discutiam, de modo reflexivo-múltiplo-estético, questões urgentes sobre gênero, feminismo, racismo, opressão.

O PIÁ (Programa de Iniciação Artística) recebe crianças e adolescentes de 5 a 14 anos, sem nenhum pré-requisito a não ser: vontade de estar, criar, brincar, encontrar, existir num espaço de ação. Muitas orientações acontecem, inclusive, com duas linguagens artísticas simultâneas em cada turma, entre teatro, dança, música e artes visuais. As crianças do PIÁ tem, nesse lugar de experiência, um espaço para tocar o mundo de modo sensível, lúdico e criativo.

Para os artistas-orientadores, artistas-educadores e artistas-articuladores dos Programas, as condições de trabalho sempre foram precárias: somos autônomos, temos uma média de 8 meses de contrato e absolutamente nenhum direito trabalhista.

Os editais de ambos os Programas sempre foi anual, garantindo o princípio legal de renovação de no mínimo 20% da equipe a cada ano. Desse modo, mantém-se a continuidade ao mesmo tempo que um fluxo de renovação. Quando novos profissionais chegam aos Programas e são recebidos por aqueles que já atuaram antes, é possível o contágio, a transição, o aprofundamento e a renovação de modo fluido, em consonância com todos os trabalhos que já estão em andamento.

No final de 2015, pela primeira vez a equipe conquistou um edital bienal, que foi construído por uma equipe de trabalhadores dos Programas junto ao jurídico da gestão (prefeitura) em vigor. Desse modo, a próxima equipe aprovada em edital trabalharia nas edições de 2016 e 2017, fortalecendo o princípio de continuidade e vínculo. Ao final desse prazo, seria lançado novo edital. A recontratação dos profissionais para 2017 estava condicionada a uma avaliação feita pelas equipes, pelos equipamentos que recebem os Programas e pela Secretaria de Cultura. Tal avaliação foi feita e o resultado da pontuação foi publicado em Diário Oficial no final de 2016, "visando a contratação dos mesmos para a edição de 2017".

Bem-vindos a 2017! Nenhuma notícia clara sobre o retorno dos Programas. E, em toda a Secretaria de Cultura, 43% de congelamento da verba total da pasta (que já é minúscula, menos de 1% do total da cidade). Não vou entrar, aqui, no mérito de outros desmontes já realizados pela Secretaria de Cultura em outros projetos/programas/editais, infringindo inclusive, a lei.

21 de março de 2017. As equipes dos Programas são chamadas às pressas pela manhã (e num chamamento não-oficial) para um encontro na tarde do mesmo dia, onde fomos COMUNICADOS (não há diálogo, há um recado transmitido) que "o jurídico da atual gestão considerou ilegal recontratar os artistas que trabalharam em 2016. Desse modo, nenhuma das mais de 300 pessoas que atuaram nos Programas no ano passado será recontratada. A lista seguirá a partir do último nome chamado". E mais um alarme: se a lista terminar e ainda houver vagas, será feito um novo edital. Mas e a bienalidade desse? Não vale nada??
E O FUNDAMENTO DA CONTINUIDADE, UMA VEZ QUE NÃO HAVERÁ NA EQUIPE DE 2017 NENHUM ARTISTA QUE ESTAVA NO PROGRAMA NO ANO PASSADO?
Como dar sequência aos processos se todas as pessoas contratadas são novas?

Sobre o argumento usado pela gestão, no edital consta o seguinte item:
"13.2. Os selecionados serão oportunamente contratados, de acordo com a necessidade de serviço e havendo disponibilidade orçamentária, por um período de ATÉ nove meses, admitindo-se a prorrogação, por uma única vez, por igual ou inferior período, respeitado o prazo de vigência do credenciamento a critério exclusivo da Administração. A competência para contratação dos selecionados é do Departamento de Expansão Cultural e da Divisão de Formação Artística e Cultural, da SMC."

O jurídico atual argumenta que, para haver prorrogação, nossos contratos (encerrados entre final de novembro e início de dezembro de 2016) precisariam ainda estar vigentes. Mas como prorrogar com emenda nos dois contratos, se a quantidade seguida de meses trabalhados geraria vínculo empregatício - o que não pode acontecer na nossa condição de prestadores de serviço para a prefeitura? Como um jurídico (anterior) acompanha a elaboração do edital e considera que não há irregularidades, e o outro jurídico (atual) "interpreta" o contrário? Não há ética e cumprimento dos acordos feitos?

ONDE ESTÁ ESCRITO QUE É ILEGAL OU PROIBIDO RECONTRATAR OS MESMOS PROFISSIONAIS NO SEGUNDO ANO DE VIGÊNCIA DO EDITAL? - SE NÃO EM CARÁTER DE PRORROGAÇÃO, ENTÃO, COMO NOVOS CONTRATOS.

Se fica a critério da Secretaria, admitam que é UMA DECISÃO POLÍTICA DE DERRUBAR TODOS OS PROCESSOS CONSTRUÍDOS, COMEÇAR OS PROGRAMAS DO ZERO E DESCARACTERIZÁ-LOS POR COMPLETO.

Se os pilares básicos dos Programas são destruídos, eles deixam de ser o que eram. Viram um arremedo do que foram, onde se mantém apenas os nomes e a falsa imagem (que a Secretaria está tentando construir) de que há manutenção dos programas públicos já vigentes - mas, na verdade, o que está acontecendo é um desmonte absoluto.

Vale dizer que a verba destes Programas vem tanto da Cultura quanto da Educação. Ambas pastas com enorme porcentagem congelada. Responsabilidade de quem? Do atual prefeito. O congelamento tem um objetivo claro de sucateamento estratégico de áreas essenciais para a sobrevivência da cidade, em especial aquelas que lidam com construção de pensamento e ação. E, com o argumento do congelamento, não há agora verba da Educação disponível e, portanto, os Programas não acontecerão nos CEU's. Em nenhum equipamento da Educação.

Uma parcela muito menor dos espaços públicos terão acesso aos Programas, de modo descontinuado, fragilizado, desmontado e prestes a ser qualquer outra coisa, menos aquilo que foi construído ao longo de anos de trabalho e dedicação por milhares de cidadãos, entre artistas-vocacionados-piás-educadores-orientadores-articuladores-coordenadores que passaram pelos processos e fizeram da ação, história e memória o que estes Programas são no presente.

Pelo menos eram, até a gestão Dória-Sturm que deseja transformar a Cultura da cidade num cinza desbotado e sem vida, sem relações, sem vínculos, sem criticidade, sem história, sem transparência.

Mas a arte resiste e isso não é romantismo. É a natureza da nossa ação.

Com Amor e Respeito profundos pelos Programas e pela História construída por eles,

Cristina Ávila
artista+orientadora

#PIÁeVocacionalResistem
#ContraODesmonteDaCultura
    

terça-feira, 21 de março de 2017

URGENTE!!! DIVULGUEM!!!

Programas Vocacional e PIÁ DESMONTADOS pela atual gestão de São Paulo: prefeitura e secretaria de cultura.

Com argumentos jurídicos manobrados de acordo com a vontade dessa gestão, nenhum(a) dxs 300 artistas que trabalhou no ano passado será recontratadx. Nenhum(a). A lista seguirá a partir da última pessoa contratada, mesmo que no ano passado o edital tenha sido bienal (porque é princípio fundamental dos Programas desenvolver processos com continuidade) e a avaliação dxs artistas para recontratação tenha sido feita em dezembro.
Isso significa o desmonte completo de mais de 20 equipes espalhadas e articuladas na cidade, que dariam sequência a trabalhos continuados com mais de 8000 vocacionadxs na cidade inteira.
Não há acordo com João Dória e André Sturm.

AÇÃO URGENTE!!!!

#ContraODesmonteDaCultura
 

quinta-feira, 16 de março de 2017

A Prefeitura do Município de São Paulo e a Secretaria Municipal de Cultura ORGULHOSA E ESTRATEGICAMENTE APRESENTAM:

"A DESTRUIÇÃO DA CULTURA - uma rasteira em São Paulo, nos trabalhadores da área, em todos os demais profissionais envolvidos, no público da cidade inteira e nas conquistas históricas construídas por décadas"

COM: verba congelada - desmonte absoluto das ações culturais - edital assassinado - edital relançado com critérios de sucateamento e incompreensão - ilegalidades - autoritarismo - sumiço dos programas de formação - sufocamento dos projetos culturais de todas as áreas - destruição das conquistas históricas da classe artística - ausência de trabalho - ausência de diálogo - tentativa de acinzentamento do pensamento e da produção cultural na cidade
Em cartaz ao seu redor. Em todos os lugares.
Onde era público e deixa de ser.

ATO AGORA NA GALERIA OLIDO, ÀS 10h

#DescongelaCulturaJá!!
#DevolveOFomento
 

segunda-feira, 13 de março de 2017

O mínimo do que está acontecendo nas raízes da cidade: a gestão-desmonte-dória é contra os direitos básicos do povo, dos trabalhadores, passa por cima das leis, desfaz em semanas conquistas históricas construídas por décadas.
#ForaAndréSturm, #ForaLaraPinheiro, que usam seus cargos com arrogância, não dialogam, não representam e não apoiam os direitos e os trabalhadores da Cultura.
#ForaDória, fantasiado de todos os personagens pelos quais ele não tem nenhum respeito. Rei absolutista marqueteiro, higienista, pseudo-prefeito, autoritário.
E #ForaAlckmin e #ForaTemer pra não perder o costume, porque faz tudo parte da mesma panela fascista e repressora.

#DescongelaCulturaJá!!
 

quarta-feira, 8 de março de 2017

o dilúvio seria menos enchente se não fosse de novo falando do óbvio
do que não deveria precisar ser defendido
da lista de assombros todos da mesma família
bomba porrada pancada
congelamento dos direitos cultura-vidas-pessoas-soterradas
buraco fossa lama-não-paga
de novo e ainda precisa dizer da importância
precisa dizer da pertinência
precisa dizer que o assassinato (sucateamento-desmonte-cancelamento) da Cultura é aberração inominável
e o assassinato (racismopretopobreperiférico) do menino (milhares) esfomeado (milhões) é aberração inominável
e o assassinato (lgbtfobias) de muitas (Dandaras) é aberração inominável
e o assassinato (machismomisoginia) de inúmeras (elas) é aberração inominável
precisa dizer que pro cara (são muitos) que esquartejou a mulher (quantas) era prisão pro resto da vida
precisa combater ainda mblbolsonaroescolasempartido (e seus ecos torpes)
e apanhar da tríade golpefederal-estadual-municipal-higienista-fascista
precisa dizer ainda de novo que massacrar gente é espantoso é aberração inominável.
   

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Com as dúvidas e escolhas todas.
Com tempo e respiração.
Com o cansaço.
Os extremos.
As vontades nubladas.
O movimento.
Com encontrar e esconder, com estar e sair.
O espanto.
Aconchegos.
Com alguns espaços de nada.
Com encontrar preenchimentos.
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

mesmo que rápido . mesmo que trampo . mesmo que tanto tempo depois . mesmo que tão pouco tempo agora . é mesmo sempre . vocês são resgate . amor .
 

sábado, 19 de novembro de 2016

a rota bala morte extermínio e se não fossem essxs seriam outrxs e de novo nenhum policial ferido e de novo a pena de morte por conta própria e de novo na periferia e de novo a polícia assassina e de novo.
 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Os corpos dos meninos na desova. Trump e todos os ódios nos EUA. ForaTemer no Brasil, só que dentro. Alckimin e a polícia assassina no Estado. DóriaCaviarReaça na cidade. Crivella e o Rio de Janeiro no oportunismo da dita-religião (o estado é(ra) laico). Os corpos dos meninos na desova.
 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Parecia com janelas fechando. Ventan(i)as batendo, ar denso e massivo, visão nublada. Voz muda e balbucio. Ininteligível, sombria. Em-n-volta e dentro, ar espiral. Uma voz sussurra para a outra; uma leva, a outra traz. Uma voz diz, a outra pensa. Uma voz pensa, a outra está. De voz em voz, de grito em sussurro. Volumes. Janelas entreabertas, vozes nas janelas.
 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Já era quase dia seguinte quando consegui finalmente ouvir ao vivo a finalização de uma segunda-feira tão exaustiva quanto histórica pra essa mulher. Tantas horas depois e ela ali inteira, digna, consciente, clara, segura. A força de argumentação lúcida depois de mais um degrau pro golpe escancarado, além das ruas com bomba e fumaça graças aos "coronéis-paulistas-militares", os pretensos donos do mundo, covardes alckimistas do gás de pimenta. De Dilma, uma gestão imperfeita sim (e alianças espúrias, sem dúvida), mas sem crime como é sabido e reforçado e mal-disfarçado; ela lançada diante de uma aberração de proporções tão grandes quanto este julgamento injustificável. A rasteira golpista em fase de concretização final, a descida ladeira à direita, mas fica sua figura de resistência e coragem profundas diante desse processo mentiroso e fascista.
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Esse manco que somos todos nós sempre que falta, sempre que suspendemos para saber algo antes de ir. Essa pele que desvestimos pra voltar a caber-nos, dentro e fora da luz, por dentro ou ao redor das sombras. Também somos feitos dos espaços que ocupamos, das calçadas que pisamos, das figuras que trançam os lugares, dessas noites múltiplas como os lados de dentro e desses dias muitos como tantos nós. De repente um flash deflagra. Um black-out também. Caminha, caminha, cava. Encontrar também é continuar procurando. Deixamos. Insistimos.
   

quarta-feira, 20 de julho de 2016

yo escribo en mal español,
con un tartamudeio en su idioma,
mientras espero su retorno,
y recuerdo su voz,
mi cantante por el mundo,
te mando besos del otro lado del mar,
que van corriendo a su encuentro,
para decirte que yo te quiero,
te extraño,
y me haces falta, mi amor, mon amour...
 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O homem de bengala. O cão sustentando no ar uma pata traseira. Compartilhavam esse passo-tropeço, esse caminho sem pressa, no tempo esburacado de centímetro em centímetro. A cada pontilhado, passava um à frente. Pelos caminhos soluçados, sempre chegam. E tornam a ir.
 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Esses oitos, dois, deitam-se e ganham a dimensão sem margens. As curvas despontam encontros, deslizam juntas no ciclo circular. Colorem, os redondos. Tocam, são sentidos. Atemporais; cronologias são só partes de tudo. Desdobre-se em espirais (mil)tiplas. Dale!
 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Se é buraco ou excesso, corda-bamba ou montanha russa, essas ondas não sabem dizer. Querer contornos, contornos, deixar vazamentos, aproximar assim. Fazer do que é quente, presença, do que é cheiro, laço. Ar ao peito e remodular. Saber o caos, refazer e manter calor.
   

terça-feira, 28 de junho de 2016

Uma. Compõe, é. Outra. Assimila, desloca. Qual é eixo, qual paira? qual pende, qual prende, qual arremesso, qual paúra, qual fome, qual ânsia, qual deserto; todas desejo. Dentro e fora, as cidades escorrem, minhas partes ecoam, as vontades transbordam, as cidades explodem.
       

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Uma, mas são milhares, e bastaria ser uma. Mais de trinta, ou poderia ser um, bastaria ser um. Como resetar uma violência que não tem volta, uma dor que não tem medida, um corpo lesionado, todos os corpos lesionados, uma meninamulher invadida, todas as meninasmulheres invadidas, o mundo saturado dos cortes, dos rasgos, das feridas, dos sangramentos que não coagulam. O inconcebível.
     

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Reafirmado um tempo de golpismo, espanto, tensão, retrocesso, manipulação. Que venha barulho, muito barulho, até o ensurdecimento, para que se possa trilhar algum lugar menos tortuoso e anti-democrático.
       

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Tinham nas vozes discursos gagos e grunhidos, tinham no caráter fedores e mentiras; ou não tinham caráter - disfunção da qual sofria a maior parte. Eram figuras saídas de dentro de móveis abandonados, por baixo de tapetes empoeirados, numa sucessão de deformidades mal-elaboradas, como num cenário macabro de baixa qualidade.
Apesar de óbvios, tamanha existência em massa chegava a surpreender em alguma medida, arrancava às vezes risos nervosos diante do desmonte dos seres que cuspiam bobagens.
Eram muitos. Doentios. Embora já saídos das fraldas há muitos anos, reagiam com infantilidade bestificada diante da minoria de figuras contrárias ao seu show de horrores (porque sim, elas existem, e um salve à coragem e pertinência dos personagens que habitam a outra margem do rio).
Como suportá-los, esses fascistas de golpe em punho, racistas e homofóbicos, ignorantes e mentirosos, hipócritas e cínicos, torturadores armados de ódio construído e conveniente, inflamados e sem vergonha por suas próprias existências?
Por horas exibiram-se num show patético comandado pelo showman-risonho-bandido-gângster-canalha (outro salve aos nomes tão adequados) que se julga impune, mas acreditemos que cairá, porque tamanho terror personificado há que ser aprisionado para longe das nossas existências.
Tal exibição só caberia neste dia da semana, dia de programa dominical com dedicações imbecilizadas às suas-famílias-propriedades, aos deuses genéricos, aos golpistas, a um torturador. A um torturador.
Há os piores e há os piores que os piores. Não cabe dizer amebas, porcos, ratos. Comparam-se aos humanos, e apenas aos humanos, essa raça que tem sabido cheirar tão profundamente a esterco.
Os pobres, negros, índios, mulheres, violentados, homossexuais, guerreiros, lutadores, torturados, desaparecidos, miseráveis, excluídos, decentes, estes não cabiam naquelas bocas imundas.
Poderia ser o roteiro de um filme ruim, mas foi verdade não-estética, foi verdade e re-revelação.
   

quinta-feira, 17 de março de 2016

Alienação desmedida nesse verdeamarelismo mascarado de justiceiro, tomando os horários nobres da tv mais suja do país. Olhar pra isso como a maior estratégia de manipulação dos últimos tempos não significa defender um partido, e sim ouvir sons por trás dos berros: nos caminhos glob(golp)istas que estão dados, a ilegalidade impera, já que são alguns dos maiores representantes da podridão política brasileira que comandam os rumos dessa descida torpe esgoto abaixo.
‪#‎naovaitergolpe‬
          

sábado, 12 de março de 2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

Tem até dancinha pro impeachment golpista, com tutorial, apoiada em discursos de ódio e suposta justiça (sombria). Patetismo e piadas à parte, o nível de surdez, intolerância e alienação a que se chegou não tem argumento que desfaça. Só me faz lembrar a fala do Durvivier: é querer limpar o chão com bosta.
   

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

quanto mais pesava, mais afundava e era mais claro e barulhento ali embaixo, era um passeio pseudo-passivo que movimentava algo de dentro muito e algo pouco de fora; empurrar a luz dessa água-eu-submersa, vontade si-mesma, espreguiçar os sons, espreguiçar os gritos - nem todos meus -, escorrer, vazar íngreme.
           

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

quando nem um certo ceticismo me impede de reconhecer os anjos terrenos, dos que são mais encantados assim, com suas vozes e braços e pernas, do que se tivessem mil asas cada um. Por todas as presenças, as físicas, as intuídas, as enviadas, as próximas-distantes. Pelas mãos dadas, pelas compreensões das ausências e silêncios pedidos. Pelas urgências e olhares, pelo tempo contínuo, pelos acolhimentos nas escolhas emergentes. Pelos até então desconhecidos que foram peritos também. Por alguma espécie de desvelamento (em curso ainda, sempre e para sempre) do medo que mora nas casas mais escondidas, apertadas ao extremo, de mapas borrados e portas e janelas às vezes muito cobertas, que revelam suas frestas aos poucos ou repentinamente; de quando se toca uma espécie monstruosa e é preciso achar a estrada por onde ela se afasta e toma outro rumo.
Porque há necessidade de tempo.
De paciência.
Do tempo.
Dos seus nomes, dessas-desses-essenciais, estas-estes sabem-se. É aqui por palavras porque há tudo que nunca será dito o suficiente, mas precisa ser lançado para que seja ao menos um tanto a mais. Com amor sempre. É um pouco mais do que agradecimento. É a própria constatação da possibilidade e pulso da existência.
 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Um objeto de cada vez, pegava da mão de alguém, colocava no bolso, muitos. O sorriso intermitente durante isso que durou muito tempo. Talvez mais de 60 anos, talvez muitos a menos com a diferença envelhecida na rua. Só calça. Não tinha camisa, não tinha sapato. Pra quem via com olhar óbvio, não existiam objetos também, nem quem os entregasse. Pra ele que via mais, existia tanto que se despediu agradecendo com tapinha nas costas de ar. Alguma imaginação quase infantil, que seria bela se não fosse delírio. Ou era bela, embora delírio. Ou seria delírio, se não fosse verdade.
 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

que talvez não saiba agir sem ser reação, que no encontro do corpo com o mesmo corpo de si, revela-se/me o corpo de dentro com a mesma transparência velada de poesia escrita, tão múltipla nas leituras quanto óbvia na sensação sem nome. Que o pensamento vire suor, porque é quando escorre que vai ser matéria expandida no espaço.
     

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

olhar que cabe na mão que cabe nas palavras que cabe em imagens que cabem na boca que cabem nos dias que cabem no espaço que é corpo que cabe em corpo.
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Como surpresa que intuía, é música sem antes nem ter sabido por som, porque música é em mim o que não domino, não controlo, é o que me atravessa sem pedir. Que bom vir. E ficar
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Tem um som que vem de fora e um outro som que vem de dentro. O som que vem de fora é mais frenético do que o som que vem de dentro, mas o som que vem de dentro é mais forte do que o som que vem de fora. Tem um som que vem de fora e um outro som que vem de dentro. O som que vem de fora é mais frenético do que o som que vem de dentro, mas o som que vem de dentro é mais forte do que o som que vem de fora. Tem um som que vem de fora e um outro som que vem de fora. E um outro som que vem de dentro. O som que vem de dentro é mais forte que o som frenético que vem de fora que o som que vem de dentro. Tem um fora que vem de dentro que é mais forte que o frenético que vem de outro som que vem de dentro. Tem um forte que vem de dentro que é mais forte do que outro som que vem de fora. Tem um que vem que é mais som do que dentro fora frenético mais do que vem de dentro. Tem um som que vem de outro som que é mais que frenético dentro fora forte.
 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

sai água entra lama . sai escola entra gás
entra prisão sai aluno . entra polícia sai professor
sai índio entra bala . sai gente entra massacre
entra grana sai barragem . entram as igrejas dos deuses que nem foram consultados saem direitos básicos óbvios
estamos soterrados só que dessa vez não é metáfora
estamos demolidos por dentro e ao redor
não é tragédia natural. não é reorganização. não é reapropriação. não é a lei da vida ou pela vida.
é crime acumulado.
 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

domingo, 18 de outubro de 2015

tem na lacuna a imagem que, mesmo invisível, pertence; quase um código morse velado e revelado; imagens espelhadas arriscam sinais ruidosos; esse vácuo insistente, num instante revertido, parece nutrido inteiro, cheio, presente; de dentro do lapso eu quero dizer uma palavra alta que rabisque essa pausa de mil segundos.
 

sábado, 17 de outubro de 2015

pulsos irregulares (mudos) (entre os corpos) (quilômetros de frequências sonoras) (atingem picos com qualquer som) que são só intuição.
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Quis olhar com alguma distância. Que estivesse próximo, atravessado até, mas ali em outro lugar. Olhava quase por baixo, de certa forma diretamente, mas mais os caminhos e vultos do que aquilo que devolvia o olhar. Essa vibração sempre, tão própria, tão invisível, que não sabe se move ou estagna. Corpo mais largo por dentro do que por fora, corpo desencontro em si, partes que dos múltiplos que querem alcançar, às vezes não são. O profundo é sim e não, e sim e não, embate laceado, dureza chovendo frouxa até alagar. Desgaste profundo que vira ânsia, lágrima, raiva e então expansão. Silenciosa, interna. Quando-quanto foi mais pra fora, mais foi o avesso que ocupou os olhos que atravessaram, avesso-se, me, olhar-te-a-si.
     para Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
   

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A gaveta fechada é que está povoada de gente. Ali tem os esboços que me rodeiam, e aqueles que me convivem. Ali a escuridão me mostra todos, habitamos juntos na profusão de ruídos e presenças. Quando luz, é o vazio. Como se antes, imediatamente, pouco tivesse existido. Eu solta, no meio, quase capaz de ocupar o espaço maior do que ele é. Solta na própria órbita, mas enganchada pelos rabiscos do escuro, pendulando entre as fronteiras. A gaveta e a luz se confundem. Fechar e abrir é instante. Tamanho. E ausência, ou.
   para Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
      

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A ironia fala do tanto que não se ignora o ridículo de ser gente, não se ignora o ridículo, não se ignora. Esse riso amargo tem o gosto do que embaixo de nós, há. Acima e ao lado, e por dentro; esse riso que vaza quando são os excessos de preenchimento.
*
É tudo pretexto para que isso não deixe de acontecer. Eu te-me-nos conecto por um fio, tu me-te-nos conecta por um sopro. O espaço ao redor de nós, todos nós, nos-te-me-nos conecta ainda que pela ausência, e essa ausência tem(e) o peso dos silêncios áridos, ácidos, silêncios queimados, rastros dos restos dos pedaços de som. Há sempre milhares de janelas por onde as cabeças (sempre elas) dos vizinhos alongam os pescoços espiralados. Querem fazer parte do que é alheio, querem conectar-se-nos-todos, mesmo que em fragmentos.
para Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
    

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Ato único. | banheiro de shopping center - a segurança e a faxineira ao vivo - o supervisor citado - uma não pode conversar com a senhora que puxou assunto - a outra não pode falar mais do que "depois da escada rolante" ou "no final do corredor" - uma sugeriu que então só os mudos entrassem ali - a outra teve o tempo do banheiro rastreado pelas câmeras ("ainda bem que foram só 5 minutos") - nenhuma pode se dirigir às lojas se estiver de uniforme - uma só pode assegurar o bem estar dos frequentadores - a outra só pode assegurar a limpeza para os frequentadores - uma só pode limpar o chão - a outra só pode garantir a ordem - no tempo cronometrado trocamos algo sobre exploração . preconceito . o filme que está explodindo . o funcionamento que estabelece os lugares onde se pode e não se pode ser . as denúncias - a porta do banheiro é atravessada por elas de volta ao mundo ordenado e limpo - limpo e ordenado pelas duas que ali não deveriam existir para além da função de não existirem - para além da função de só funcionarem - para além da função de serem úteis e invisíveis - para além da função de transmutarem-se (mudas) em função. | Fim. | Ou outro começo.
 

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Cabeças pendem pela gravidade. Ou gravitam em volta de si mesmas, ancoradas num não-se-sabe-o-quê. Acontece que quanto mais vácuo, menos o peso de cada cabeça cabe em si - a não ser pelo disfarce, pelo patético da gente. A cabeça esconde o que não se sustenta enquanto faz de conta que sim. Então que as cabeças des-conduzem o espaço-do-todo (cabeça também, de cérebro magma), essas que acham que encontram, ocas e retrocessas. Até que voam, e o peso é espaço, ou revoam, e o peso é lava.
para Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
    

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Fazia tanto silêncio quanto a inquietude podia constituir. Era pr'aquele outro pedaço confundido de mim que eu olhava, aquele que quase vomita, que seca escapando dos naufrágios, mas úmido ainda. Esse pedaço duplicado seguia o acordo aflorado durante, e que tinha tamanho um pouco maior que o limite de um outro pedaço - este mais material que simbólico. Enquanto isso, aquele silêncio acobertava um canto contínuo que já havia sido som e agora era suposição. O canto intermitente seria como desgaste: necessário.
para Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
     

domingo, 30 de agosto de 2015

Que nomear o invisível é tarefa insistente, é como transmutar em palavra o que tem a mesma complexidade do tempo, o que tem tantas faces quanto enigmas, o que muda porque precisa, porque é também impreciso, mas mantém a cor. Daquilo que nos constitui, somos fruto, pulso e refazimentos. Algumas luzes não se apagam, elas gritam.
   

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os olhos sumiram. Estavam lá, imagino, mas por trás de uma sombra qualquer fantasiada pelo meu olhar que não enxergava bem. Da neblina que meus olhos criaram naqueles, desenhei o que achei que poderia ver, pensando que quem traçava não era eu, talvez supondo que o que eu rabiscava, estava. Sem saber e sem sabermos eu escolhia cada intenção que pensava ver, possíveis que eram todas de emergir. Eu que sem ver, pensava que via, não via que os outros olhos devolviam o olhar, também. Não via que o que eu pensava que inventava, era.
para Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
       

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Já comecei a pensar nisso durante. Eram três lugares de um mesmo outro corpo, um do prazer, um da indiferença, um do medo e frio. Não que tivesse que ser assim cartesiano, nada tinha que, mas era. Os líquidos que rolavam eram melhores se conduzidos por fora, a cabeça revê a vida e o peso era lugar de conforto. De todas as imagens, não sei se é deslumbre ou aflição. Eu tiraria a luz de cima e colocaria por dentro. Buscava calor. Do contrário (contrário nada) de mim, buscava calor. Um que viesse das cavernas de através. Do contrário que também era eu, buscava calor.

escrita desejada e não-automática
experimentos pela anatomia do movimento - letícia sekito . Abissal . iN SAiO Cia. de Arte

    

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Eu pequena pequena querendo saber alguma coisa do peso da ânsia do que passa pela cabeça lembrei agora da letra que esvaziou o peito esvaziou o ar esvaziou as margens (plácidas?) acho que não as forças são diferentes e penso em não querer mais que elas estejam tanto quanto querer muito alargar é um movimento quase fora do corpo que não habita do corpo que não sabe se está porque assim estão as desconexões opostas esvaziadas de novo sempre tão esvaziadas hoje do sempre de hoje se eu quisesse dar um nome seria o que a caneta não completa direito como se fosse uma descoordenação cada palavra.

escrita automática
experimentos pela anatomia do movimento - letícia sekito . Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
   

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Eu começo pela ausência porque quero a presença no final. Agora você está faltando e no seu lugar fica um abismo. As palavras escapam. As lembranças dos anos o pensamento a sua primeira chegada os sons as lambidasbeijos o seu olhar a sua parceria o seu amor a companhia permanente os cuidados a teimosia os latidos insistentes a personalidade a sua namorada as casquinhas de pizza cenouras ossinhos bifinhos as conquistas os ciúmes os medos o carinho nas orelhas a zebrinha de presente (que tá aqui) as estratégias (suas e nossas) o espaço todo ocupado as suas escolhas e tudo o que agora a falta desenha uma nuvem na frente o tanto que eu te agradeço por ter existido nas nossas vidas o tanto que a sua importância é única. Acho que é a primeira vez em 12 anos que eu choro muito e você não tem como lamber as lágrimas. Foi como um susto porque o seu tempo é o da existência inteira, ágil, barulhenta, presente, e menos do que isso era muito pouco pra você. Eu que nunca acreditei em céu, hoje construo um sob medida pra você estar. A dor é nossa pra você poder respirar, e por mais que seja aguda eu prefiro sentir assim e poder ter compartilhado a sua existência encantada. Eu te beijei mas na verdade não sei despedir. Fica tranquilo. Obrigada, meu amor. Eu te amo pra sempre, pra sempre, pra sempre. Assim, você fica.
   

     

quinta-feira, 30 de julho de 2015

No fio invisível entre fragilidade e força. Linha rasteira que às vezes rompe, as vezes dilata, às vezes chicoteia. Tem vazado como torrente, penetrado as escolhas, sido às vezes trovão, outras recolhimento. As coisas da vida-instante escapam das mãos, o tempo vai à frente, enquanto os dias não me respondem. Que o ar seja suficiente.
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tem aqui uma ansiedade pra fora pra fora uma coisa que quer sair vomitar como ânsia tremor e eu à margem do espaço que não tem tamanho certo a mão não obedece o punho a cabeça esvaziada vazando tudo isso que não tem nome engulo de novo pra sair não tem porta sem ser por lugar nenhum que eu conheça uma fragilidade explodida em mim sem corpo sem contorno sem força o eu sem nome como buracos eu inteira buracos em volta onde vai ser pra pisar um buraco que não tem nome também espalhado em todos os pensamentos enquanto o corpo pensa o buraco se move ao redor.

escrita automática
experimentos pela anatomia do movimento - letícia sekito . Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
        

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Engolir engolir ir pra dentro do que expele expelir como gota escorrendo sangrando gerando para cima e em seguida tem como um líquido meio pastoso com cor de sangue caindo pelas paredes parece que sai dos espaços do teto e escorre como vazamento aí vai passando pelo chão e começa a suar e a soar e a suar mais profundamente e volta a ter cor de sangue e a engolir e puxar como ralo vácuo vácuo vácuo eco som de eco de fora pra dentro eco vácuo engolindo o som o sangue os objetos engolindo o mundo para gerar outro engolindo a mim para gerar outra eu outros seres expelindo entregando suando o mundo cor de cobre.

escrita automática
experimentos pela anatomia do movimento - letícia sekito . Abissal . iN SAiO Cia. de Arte
      

terça-feira, 21 de julho de 2015

que basta uma referência pequena, minúscula reexistência passageira, basta um nome, uma imagem sugerida, basta uma menção indireta, e o mundo se dissolve por segundos para virar ao mesmo tempo aperto e estouro, para virar ao contrário, para se revirar, para depois virar-se de volta à face desvirada - aquela mesma, avessa por si só.
 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

De manhã o café quase acabando de passar, um instante e espalhou pela cozinha inteira. Tem dia em que o dia começa assim, com cara de metáfora.
 

domingo, 19 de julho de 2015

O lugar é mais que espaço. Que ser espaço é mais do que terreno e construção. Ali é memória de tempos, resgate de histórias, retorno de gentes, regresso das funções multiplicadas pelos contextos uns, outros, alguns. Onde eu soube chegar desde com pequenas mãos dadas até as próprias pernas durante anos de estar(es). Tem cheiro próprio, dessa vez igual mas não. A cor de tijolo, que domina em parte mas é como se fosse tudo, reconstrói em mim casas antigas, translúcidas, mais internas do que evidentes, dessas que só se vê quando não se está mais. Ou quando se está de volta. Ao mesmo tempo re-estar e vermemória, e sou-eu-hoje-todas-as-outras-de-mim, sobrepostas, umas maiores que outras, e outras mais opacas que umas, e nem uma nem outra mas também; seguinte.
 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O primeiro silêncio foi encontro. O segundo silêncio foi contato. O terceiro silêncio foi surpresa. O silêncio seguinte foi conexão. O outro silêncio foi latejo. O silêncio então foi incandescência. O silêncio depois foi espanto. O ... foi lacuna. O próximo silêncio não se sabe; este está mudo.
   

domingo, 5 de julho de 2015

Respeito, mesmo, o susto de todos os que já foram agredidos por menores (ou maiores) de idade. Respeito o luto dos que viveram perdas definitivas por conta de que tipo de violência for, inclusive pelas mãos desses menores. Mas respeito em escala imensurável o luto dos que perderam seus menores nas periferias, e como são muitas essas perdas, e tantas, e muitas mais, e quantas gratuitas. Mas estas não aparecem quando se discute a redução da maioridade penal, e enquanto não se admitir que esse tipo de criminalidade é uma questão social, não sairemos do lugar. Ou melhor, sairemos, rumo a um país cada vez mais violento, racista e discriminador.

Uma das grandes confusões que se faz nessa discussão é achar que quem é contra a redução "defende a impunidade". É o contrário. Impune é a sociedade que permite tamanho desamparo. Não adianta pensar que "querer é poder", simplesmente porque o mundo capitalista é construído para a desigualdade. Não há como todos terem as mesmas condições, porque o lucro de um depende da exploração do outro. Simples assim: é o capital quem manda, e em nome dele vale tudo. Há quem manda e quem obedece, há quem pode estudar e quem não pode, há quem come e quem passa fome, há quem tem o direito de viver dignamente e quem tem o dever de aceitar que seu esforço e seu trabalho valem menos (muito menos), porque afinal, a vida é assim mesmo.

Estão, ou vem das periferias, muitas das principais pessoas com as quais eu convivo, amo e/ou admiro (seja pelo contato direto ou por saber da sua militância) e eu seria no mínimo ignorante e preconceituosa se achasse que essa não é uma realidade possível. Aliás, é nessa força que eu acredito e confio em primeiro lugar e é por essa potência que eu escrevo. Várias dessas histórias ainda se reforçam justamente por conta das possibilidades (dizer o óbvio) de educação e cultura, e de convívio, e de reflexão e senso crítico por diversos caminhos, e de expressão e empoderamento (especialmente por iniciativa popular). E há histórias, inclusive, de reabilitação e ressocialização sem as quais várias trajetórias teriam sido diferentes. E é justamente por saber que é assim que continuo acreditando que o rumo a ser tomado precisa ser outro, diferente da escola de bandidagem que é o sistema carcerário tal como se apresenta.

No entanto, está posto que no mundo em que vivemos não há (e isso há séculos) espaço para todos os que "querem escolher". Não ter espaço inclui não ter inclusive a perspectiva de que esse espaço possa existir, ou ser alargado, ou ser conquistado por direito. Principalmente quando ele é subtraído desde o nascimento.

E aí isso significa que todas as ações estão justificadas, e que jovens que cometem crimes devem ficar impunes e livres pra continuar reproduzindo esse comportamento? Não. Em primeiro lugar eles deveriam era ter uma vida que abrisse as portas pra outros modos de ser, e isso parece óbvio. Mas vamos partir da sociedade falida que já temos, e eles já estão na rua e no crime: um adolescente nessas condições não fica impune. Desde os 12 anos ele é recluso, só que em sistema diferente. E acredito profundamente que eles precisam ter o direito a esse outro formato de reclusão para que se aponte para eles outras perspectivas, e não no meio de adultos diplomados no crime onde vão aprender a ser cada vez mais perigosos, porque não há nada diferente disso na cadeia. E uma hora eles saem (ainda que, por vezes, muito depois de já terem cumprido suas penas, num sistema lotado e falido que não dá conta dos próprios processos). E não saem de lá pra estudar e trabalhar. Né?

O crime é uma escolha? Tá aí o Eduardo Cunha, por exemplo, nos provando que pode ser que sim. Criminoso, defendendo seus interesses por meio de uma manobra inconstitucional - e em nome de deus. O ser humano sabe ser peverso também. E olha que provavelmente o Cunha nunca passou fome, nem foi discriminado, nem nunca deve ter sido agredido pela polícia nem visto parentes e amigos serem mortos "a priori" (tipo: atira e depois pergunta). E que bandido feroz ele se tornou. Mas, voltando à população à qual essa medida se dirige prioritariamente, nada me convence de que a sociedade é feita para todos e que a índole é que define os rumos de qualquer cidadão.

Se vivêssemos numa sociedade não-excludente essa discussão nem seria necessária, porque a criminalidade existente por conta dos seres "naturalmente perversos" seria provavelmente muito específica. Uma vez que não é assim, se quiséssemos realmente diminuir a violência (e não aprovar uma medida para estimular o lucro com a construção de presídios), os programas de reabilitação existiriam de fato (para adolescentes e adultos) - e acreditaríamos que essa reabilitação é possível. Se não vivêssemos num mundo racista e discriminador, o genocídio que acontece nas periferias seria uma aberração. Quer dizer, é uma aberração. Mas uma aberração que está naturalizada e às vezes ainda aparece com cara de justiça. Nada pior. Quantas vezes já ouvi adolescente dizer que, quando crescer, quer ser policial (ou bandido) pra poder mandar em tudo e todos? E não é porque viram filme de ação. É porque veem isso nas suas ruas, nas suas casas. A reprodução do comportamento de poder e repressão é séria, muito séria. Quem vive ou convive nas quebradas das cidades sabe que por lá a polícia já mata sem precisar do aval da lei. Impera uma espécie de autorização tácita para matar. Nascer imerso na violência é uma forma de se construir o mundo. Não dá mais pra fingir que não vemos isso.

Além disso, não duvido que a porcentagem de menores que cometem crimes hediondos vá subitamente "aumentar" pelos crimes forjados, nos testemunhos que afirmarão que "sim, foi esse daí", e mesmo a falta de necessidade de testemunhos e certezas, porque é mais um moleque "preto, pobre e vagabundo" que por via das dúvidas a gente já isola da sociedade. Já encarcera mais cedo e vai limpando a rua dessa gente. Armas e drogas plantadas pela polícia tem aos montes. Adoraria que fosse chavão ou exagero, mas não é. Fora o aliciamento de menores ainda menores pelos criminosos que os usam como ponta de lança. Tragédia.

E então surgem os comentários lugar-comum: "ah, você acha que eles são 'coitadinhos', 'indefesos"'. Não acho e não gosto dessa ironia. Eles aprenderam a ser bandidos e cabe à sociedade pagar sua dívida escravocrata em busca do contrário, ao invés de clamar para que se acomodem em condições miseráveis. Esse pagamento vai no sentido de propiciar uma sociedade (utópica?) revolucionária. Que comece pela extinção da miséria e dos preconceitos todos, pela extinção da fome, por educação e saúde não sucateadas e que passe pela reabilitação no crime, também.

Talvez o congresso, reacionário como está, aprove mais essa manobra porque pode estar interessado em muitas coisas, mas nenhuma delas se alinha de fato com a diminuição da violência. Se isso acontecer saberemos os frutos, e será um desastre considerável que tenhamos que pagar pra ver. Não torço por isso, prefiro ficar sem as provas concretas de que esta será uma contribuição para agravar o que já está sério demais.

Desejo aos menores que já existem, e aos menores que ainda vão nascer, e aos menores que já são maiores, um mundo onde possamos olhar uns para os outros, ao invés de nos escondermos.
     

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ódio plantado por quem sabe exatamente o porquê de fazer isso. Ódio alastrado como uma grande campanha publicitária muito bem arquitetada, convencendo multidões. Acredite que é pra diminuir a violência. Acredite que foi deus quem disse. Acredite que existem aqueles que nasceram mauzinhos (desde que sejam os outros, e não exatamente esses: os espalhadores do ódio). Acredite que quem se esforça é recompensado porque o mundo é um lugar lindo e justo, com espaço pra todos os bons cidadãos. Enquanto tanta gente acredita, uns tantos espertos-sem-caráter vão engordando suas contas, seus acordos e seus poderes sujos por tanta crença infundada, distorcida, tanta compreensão torta, tanta fraude assassina.
 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Meu corpo é vibração. Ausência no profundo do sangue, que corre esvaziado de alguma microparticulaessencial que procuro todos os dias em lugares que não sei. Por um sentir-me-sempre-o-tempo-inteiro, sou sensação que se impõe em estado intermitente de avisar: isso. Quando pequenos pulsos diários, os olhos percebem o mundo como cenas estroboscópicas só minhas iluminadas por contrações involuntárias. É estar paralela e transversal enquanto as partes caminham pra dentro em impulsos de descordenação. Meu corpo que eu sou obedece àquilo que nóseuele não entendemos. O que se arranca leva junto raízes essenciais. Cabe reconstrução.
 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

malabarismos de ar no farol, os olhos de uns sete anos, viu o que eu fiz? vi, você tá imaginando? não, elas são invisíveis, olha (num instante-palavra-gesto ela soube me contar que o que é invisível existe), e repete, gesto ágil olho atento, sim, to vendo, !!!você viu, tia?!! e começava e parava porque essa concretude quem sabia era ela, e sorria muito, como se não fosse na rua, me olhava, porque era na rua, sorria talvez; ela entendia tão bem seu estar visível-absurdo-invisível, tia, você tem água?, e abriu o farol, e a avenida em mim em seguida desabou.
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

luz na camada mais subterrânea, tão óbvia, tão constituinte da nossa matériapaíspessoasrelações, e tão moravanumlugarquepareciaentendidamasnemsempreé. Gente é complexidade, e foi n'algum lugar fundo, e verter água também é um modo de existir. Em meio a equívocos de todos os lados a questão é quem, afinal, delimitou os contornos da verdade. Que somos filhos de uma história, é tão inegável quanto estabelecido quanto imperceptível (pra quem?) quando sempre foi assim. Trata-se então de discutir mobilidade. De pensamento, em primeiro lugar.
 

terça-feira, 9 de junho de 2015

E aí que no mesmo dia correm as notícias de que o Zé Celso está sendo processado e pode ser preso por fazer uma crítica ao autoritarismo, e a travesti na cruz é massacrada por uma suposta blasfêmia que ninguém enxerga nas chacinas da vida real. E o pensamento crítico jogado no ralo porque ir a fundo nas discussões sobre opressão, massacre, preconceito, dominação e genocídio dá trabalho demais pro senso comum acostumado às grandes verdades congeladas e tão distantes da vida além da televisão. É que pensar sobre as verdades outras, plurais, por meio de metáforas ou não-metáforas, é território proibido pros pensamentos que querem permanecer imóveis e centrados nos seus umbigos normatizados.
Queria eu que Jesus, o homem, estivesse vivo e presente pra explicar pra sociedade contemporânea um pouco que fosse sobre o conceito de humanidade. Estamos em 2015. Mas isso repetidamente não tem feito a menor diferença.
   

segunda-feira, 8 de junho de 2015

No dia em que fui maior que eu, eu não coube. Fui ocupar o espaço. Os respiros eram todos acelerados, projetados nos cansaços que compartilhamos. Eu era transparente inteira, revelada em parte, espontânea toda, disparada ainda, enlaçada desde dentro. Nesse dia em que cada hora durou um minuto, eu torcia por um tempo looping que girasse lento ou rápido, mas na espiral daqui, onde estivemos sempre. Ouvia, desperta de sono e euforia, teus sons de sonho, teus sons de abraço, nossos sons de laço. No dia em que fui maior que eu, fomos juntos, e coube a nós cabermos, e ainda, em nós.