hoje aclimação nostálgica, de saudades antigas, de coisa de criança, cachorro e canário, de bairro de avós, bicicleta e lago de abacate, no tempo que voltou com jeito de um susto, como quem escapa e diz que o que foi não deixa mais de ser.
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segunda-feira, 25 de agosto de 2014
sexta-feira, 24 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Quietude. A primeira impressão é a cidade de brinquedo. Mentira de verdade. Mais cinema.
Vertigem. Vertigem. Vertigem.
História transbordando de dentro do personagem real, filho, neto, pai, homem, os olhos azuis, a fala contínua, segura, emocionada, ele inteiro incorporado às ruas, às paredes, pisos, tijolos, incorporado às gentes. Ele firme. Condutor.
No espaço singular, um baque de céu recortado entre estruturas. Pedaços de parede pingando de cima, escorrendo dos tetos já desabados. Ancorados no quase nada, prestes a cair.
Invasão invertida, verde no cimento. Chão de marrom molhado. Musgo e troncos se impõem sobre as vozes antigas que habitaram ali há quase cem anos, onde deixar perder é ganhar, ou onde deixar perder é perder-se. Do lado de lá, as janelas suspensas cospem o excesso que vem plantado da terra e do cimento.
Dos pés das escadas para cima, corredores que não existem mais. Hoje desembocam em abismos provocantes. Vertigem. Olho para cima e o azul é tão limpo que amplia o infinito. Fecho os olhos. A vertigem acalma. Abro os olhos. O corpo todo, mesmo seguro, é inteiro vertigem.
Nesse corpo são balanços. Corpo pendurado. Fisgadas de medo. Pisar chão incerto, estreito. Equilíbrio para a queda pavorosa e tentadora. Ouvir o passado no chão. Meu corpo pedaço da pedra.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Algumas pessoas realmente deveriam ficar pra sempre por aqui. Pena.
"(...) aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida. Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam- me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo."
"Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para céu que nada sabias e por onde nunca viajarias, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo. Eu estava lá."
(José Saramago)
terça-feira, 8 de junho de 2010
De noite a cidade é mais bonita. Tão mais bonita. Foi quando começou a mudar. Chegada familiar ao mesmo tempo que incógnita, ecoando estranhamentos. Depois eram rumos incertos e idiomas variados, todos?, palavras trocadas, ladeiras-muitas-ruas-estreitas de luzes coloridas e cheiros, cheiros, cheiros. Crianças. Trens de todas as pequenas moradas, correndo por uma lente de vidro transparente, minha, que buscava imagens menos reais. Boas histórias, placas, gentes, noites claras de sol e vinho. Chãos de pedra e pequenas portas baixas, de verde antigo. História concreta nas águas próximas, nas paredes, nos poemas, história nos lugares e vidas contadas. Comunicação universal em felizes tentativas inesperadas. Pretéritos mais que perfeitos imperfeitos. Olhos nos olhos, nas filas, poltronas. O sim que poderia ser amedrontava tanto quanto o não que veio real. Parte do teto desaba sem metáfora. Frases mímicas quase formuladas. Movimento na sala, nas dúvidas, em cena, da rapidez que deixa impressão de ação diluída na memória. Música na rua, dança de quem entrar, e sair, e voltar, e fechar os olhos e ver-ouvir.A fala cantada ecoando nas minhas leituras.
Cronologia própria, o tempo diferente. O que vim/fui mesmo fazer aqui? Procurar vontades. Não sei se encontro. Ainda por vir. Não sei se me encontro.
Passaram-se meses em uma semana.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Realidade incompreendida, o retorno. Mas ver o que foi tem gosto, cheiro, é história e corre por dentro como versos gravados. Não há tempo de ver o passado se transformar nele mesmo, a não ser de repente, quando vai longe, quando os rostos e corpos revistos mudaram, quando finalmente hoje é tempo diferente, embora passado a cada segundo - passado. Tempo móvel. Acelerado. Memória em espiral. Olhar para eu-aquela, personagem que não sabia de seus futuros múltiplos, hoje também já atrás. Saber mais que ela sobre o que viveria, incertas vidas, não sabem as próximas. Óbvio panorama interior. Inútil e inevitável. Acidental.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
...andando de um lado para o outro, sempre no mesmo espaço, na sala do apartamento, o chão iria gastar e eu cairia no Japão (depois pensei que, na verdade, cairia no andar de baixo)...
...nascemos com o estoque completo de voz, cabelos e unhas, e ao longo da vida eles iam saindo do corpo aos pouquinhos. Só não entendia exatamente onde tudo isso ficava guardado...
...quando o Professor Parapopó, do Bambalalão, disse "Ei, você que está aí comendo pipoca, numa cumbuquinha azul...", eu tive certeza que aquele era o dia em que ele estava me vendo pela televisão (afinal, a cada dia ele conseguia ver uma criança diferente. E naquele dia, eu de fato comia pipoca na cumbuca azul). Gritei pela sala como louca: "hoje é pra mim"!!...
...eu era pedestre. E não entendia porque a professora insistia em dizer que o sinal verde era “pra passar”, se eu só atravessava a rua com o sinal vermelho...
terça-feira, 4 de março de 2008
Uma pena - inclusive e, até, principalmente, porque eu admito: fusquinha tem, acima da utilidade (imensa!!), um valor sentimental que... enfim... E o Miguelito, quantas histórias... infinitas.........
Se alguém tiver "notícias" de um fusca azul marinho, ano 1986, placa BLZ-2798, entre em contato, por favor (isso é verdade, ele foi roubado hoje, terça-feira, por volta de 8h da manhã).
Na espera, agora.
Se alguém tiver "notícias" de um fusca azul marinho, ano 1986, placa BLZ-2798, entre em contato, por favor (isso é verdade, ele foi roubado hoje, terça-feira, por volta de 8h da manhã).
Na espera, agora.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Os olhos são fundos e antigos. Contam a passagem dos muitos anos, embora hoje saibam talvez bem pouco de si. Ou sabem por outras compreensões? Ou registraram tanto da própria história que manifestam-se apenas para o lado de dentro, tornando invisível a lucidez? Os olhos que hipnotizam pela distância preenchida por um tempo que parece esvaziar-se. O sorriso, grande. Reconhecível diante de cada imagem em outras épocas. A mão move o copo, leva o talher preparado, abandona; a cabeça pende num sono interpretado com a verdade de quem simula a si mesmo. Com a mesma lentidão do olhar que procura saber o que fazer. Como uma criança, quase um século depois, procurando entender. O som está distante mas há. Som sempre há. O ritmo de fora é compassado. O de dentro, não há como descobrir. Incógnita, tristeza, beleza. E os olhos, infinitos.
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