O homem de bengala. O cão sustentando no ar uma pata traseira. Compartilhavam esse passo-tropeço, esse caminho sem pressa, no tempo esburacado de centímetro em centímetro. A cada pontilhado, passava um à frente. Pelos caminhos soluçados, sempre chegam. E tornam a ir.
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quarta-feira, 13 de julho de 2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Um objeto de cada vez, pegava da mão de alguém, colocava no bolso, muitos. O sorriso intermitente durante isso que durou muito tempo. Talvez mais de 60 anos, talvez muitos a menos com a diferença envelhecida na rua. Só calça. Não tinha camisa, não tinha sapato. Pra quem via com olhar óbvio, não existiam objetos também, nem quem os entregasse. Pra ele que via mais, existia tanto que se despediu agradecendo com tapinha nas costas de ar. Alguma imaginação quase infantil, que seria bela se não fosse delírio. Ou era bela, embora delírio. Ou seria delírio, se não fosse verdade.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Ato único. | banheiro de shopping center - a segurança e a faxineira ao vivo - o supervisor citado - uma não pode conversar com a senhora que puxou assunto - a outra não pode falar mais do que "depois da escada rolante" ou "no final do corredor" - uma sugeriu que então só os mudos entrassem ali - a outra teve o tempo do banheiro rastreado pelas câmeras ("ainda bem que foram só 5 minutos") - nenhuma pode se dirigir às lojas se estiver de uniforme - uma só pode assegurar o bem estar dos frequentadores - a outra só pode assegurar a limpeza para os frequentadores - uma só pode limpar o chão - a outra só pode garantir a ordem - no tempo cronometrado trocamos algo sobre exploração . preconceito . o filme que está explodindo . o funcionamento que estabelece os lugares onde se pode e não se pode ser . as denúncias - a porta do banheiro é atravessada por elas de volta ao mundo ordenado e limpo - limpo e ordenado pelas duas que ali não deveriam existir para além da função de não existirem - para além da função de só funcionarem - para além da função de serem úteis e invisíveis - para além da função de transmutarem-se (mudas) em função. | Fim. | Ou outro começo.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
domingo, 19 de julho de 2015
O lugar é mais que espaço. Que ser espaço é mais do que terreno e construção. Ali é memória de tempos, resgate de histórias, retorno de gentes, regresso das funções multiplicadas pelos contextos uns, outros, alguns. Onde eu soube chegar desde com pequenas mãos dadas até as próprias pernas durante anos de estar(es). Tem cheiro próprio, dessa vez igual mas não. A cor de tijolo, que domina em parte mas é como se fosse tudo, reconstrói em mim casas antigas, translúcidas, mais internas do que evidentes, dessas que só se vê quando não se está mais. Ou quando se está de volta. Ao mesmo tempo re-estar e vermemória, e sou-eu-hoje-todas-as-outras-de-mim, sobrepostas, umas maiores que outras, e outras mais opacas que umas, e nem uma nem outra mas também; seguinte.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
malabarismos de ar no farol, os olhos de uns sete anos, viu o que eu fiz? vi, você tá imaginando? não, elas são invisíveis, olha (num instante-palavra-gesto ela soube me contar que o que é invisível existe), e repete, gesto ágil olho atento, sim, to vendo, !!!você viu, tia?!! e começava e parava porque essa concretude quem sabia era ela, e sorria muito, como se não fosse na rua, me olhava, porque era na rua, sorria talvez; ela entendia tão bem seu estar visível-absurdo-invisível, tia, você tem água?, e abriu o farol, e a avenida em mim em seguida desabou.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
aos olhos que não são olhados nunca, ou tão breve que como se não, pelos diálogos improváveis como somos todos nós, nos dedos que atravessam a janela, no aceno como toque, da porta pra fora, dos ônibus pra dentro, nas misérias todas escancaradas - gigantescas existências, nas imposições dos tempos, em escadarias de ordem, e desordem, pelos risos de outras compreensões, nas cabeças que se encostam pra, no concreto de terra e odor, nos pequenos saltos que pulsam pedra pêndulo, e então que trabalhamos cada qual em cada ofício em cada espaço-o-mesmo, e então que é a rua quem dança em nós.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
criança que ri homem que foge um que reclama moço que assusta nova velha anão cadeirante bêbado braço cruzado olhos abertos cadeira gargalhada chão ao contrário trem apertado espaço aberto as peles sorriso sortido mãe vó tio filho grupo ignora apaixona passa enquanto espera enquanto passa entra sai jogo inteiro.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
da matemática avessa moto-contínuo, da preservação do latifúndio urbano, da lógica reacionária repressora opressora, do chefe lívido imundo de sangue fumaça e abuso, da polícia alienada, da perversidade atrocidade truculência e os sinônimos insuficientes, da explosão alheia do outro-si-mesmo, do transbordamento da estupidez humana.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
sábado, 31 de maio de 2014
Como se ninguém soubesse o que se passa. Como se fosse outro dia da semana. Como se a regra (regra?) fosse mais importante do que tudo. Os sons ganham um certo emudecimento, ar de ficção, de irrealidade. Eu ganho uma certa solidão. E recortes de imagem enquadram-se por si só, pedindo registros.
Quase que em uma outra dimensão, a cidade que fala durante o meu silêncio é maior e um pouco destacada de mim.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Hoje, tarde, um vendedor ambulante perseguido por dois policiais, alcançado, jogado de frente para uma parede, a 10 metros de mim. Hoje o vendedor estraçalhou no chão todos os óculos de cabeça pra baixo, como: em cima disso vocês não levam nada. Hoje o mesmo vendedor lançado com insistência na parede enquanto mostrava os documentos. Hoje a joelhada de um interrompeu-se no ar, a mão do outro preparou o cacetete. Hoje, noite, dois policiais outros-como-se-os-mesmos, na esquina, agrediam um homem bêbado. Hoje um homem era acuado pelos dois policiais outros-como-se-os-mesmos por estar bêbado. Hoje outro homem bêbado fumava deitado na porta de um bar. Hoje a cabeça dele pra dentro, as pernas pra fora, os dedos pra cima olhando a fumaça. Tem dias como o de hoje, em que os ciclos espantosamente se completam.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Sem ver ficha, nem avaliação, me colocou nos choquinhos.
- Pra que são os choquinhos?
- Pra aliviar a dor antes de passarmos pros exercícios.
- Entendi. É que hoje eu não estou com dor.
- Uhum.
...
(segunda série de choquinhos. Nenhum exercício)
- Está liberada por hoje.
E viva o diálogo surdo na medicina moderna.
- Pra que são os choquinhos?
- Pra aliviar a dor antes de passarmos pros exercícios.
- Entendi. É que hoje eu não estou com dor.
- Uhum.
...
(segunda série de choquinhos. Nenhum exercício)
- Está liberada por hoje.
E viva o diálogo surdo na medicina moderna.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
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