Para minha filha. Para que você saiba que a espera é desde tanto. Que talvez eu tenha dito poucas palavras desde que você virou organismo que respira dentro do meu, sangue que compartilhamos, pulso, forma, pequena pessoa em movimento de vida. Quando você se tornou existência, um pouco eu emudeci. Acho que emudeci de grandiosidade e incompreensão. Por tentar apreender o significado de um fluxo tão natural quanto impalpável, do tamanho do que não cabe no entendimento. Eu inteira dilatando, você crescendo, você me crescendo, você mexendo nas cores do meu corpo, na minha respiração, no meu estômago, nos lugares, nos estados, nas expectativas, nos choros, nos sustos, nas ternuras, nos medos, nos tempos, nos pesos, nos apegos, nos espaços abertos pra te receber. Seu rosto surpresa e você tão presente, tão guardada, tão revelada em cada empurrão, soluço, onda, passagem, em ser, você que quase escondida já é como se sempre tivesse sido, você que tudo tão rápido. Eu olho pra fora e espero que você sempre simplesmente seja. Que os desejos que te preencham sejam os seus, e que eu saiba te olhar muito e profundamente. Que do mundo às vezes tão diferente da sua potência de vida surjam mobilidades, germinação de cores, que o mundo respire melhor para e com você, que vem na intensidade que é ser mulher. Aqui, presente e futuro se fundem numa dimensão mista. O que será já está sendo, enquanto hoje acontece o que é, ao mesmo tempo, projeção. Vio, Tita, é tudo novo, eu nunca soube, você talvez saiba, eu que consigo nomear tão pouco me divido em muitos feixes de sensações translúcidas. Você e eu só temos a certeza de que em breve seremos o que ainda nem alcanço, seremos olhar, toque, cheiro, seremos novo ciclo. E outros. E infinitos. Quando você souber que é a hora, vem mergulhar, Violeta.
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quinta-feira, 31 de agosto de 2017
domingo, 19 de janeiro de 2014
quinta-feira, 5 de julho de 2012
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Esse riso bom ecoando nos sonhos dos meus sonos curtos,
em tons macios, junto aos olhos apertados.
Respiração espalhada
de dentro pra fora e das imagem para dentro
corre numa curiosidade desperta.
Inquieta, acordada, para conhecer o que é, e como,
alguma surpresa escondida por trás de saber desses sons.
Convite mudo lançado à jato.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Há dias tento palavras sobre o que aconteceu. Me assustei. Reli muitas de antes, com lembrança de sorrisos em conversas antigas. Que rumo foi esse, tão desviado? Eu não entendo e não enxergo. Que bom ter cruzado com você daquele jeito incomum de conhecer. Triste, mas com muito carinho, que a despedida seja alívio, meu amigo. E força para que a sua existência reverbere sempre nas continuações daqui.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Menina pequena, criança doce, de sorriso iluminado, olhos redondos atentos o tempo todo e cachinhos deliciosos de fazer carinho. Procura os animais, chama cada um. Prefere menos barulho. Dança na sua dança divertida de giros e balanços musicais, dessas que assistiríamos por muito tempo. Fala, fala, fala, sabe tudo o que diz, mesmo que a gente ainda não saiba. Gosta de tomate cereja, rasgar papel, riscar a roupa, limpar as mesas. Observa o espelho. Caminha e corre de um jeito tão delicioso de ver. Estende a mão e vem passear junto. Tem aquele gesto nas mãos que é particularmente seu, de quem procura e não entende, e quer encontrar. Cheia de expressões. Quantas cores cria em mim, essa sua energia renovada. Bem-vinda, a cada dia, ao planeta das surpresas. O seu olhar acompanha todos os movimentos desse mundo por descobrir e eu te observo encantada e cheia de admiração.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Eram dois cãezinhos. Conheceram-se entre muitos e muitos cachorros de um canil público, frequentado por cães com habilidades específicas, quase artísticas, até. Viram-se. Guardaram-se na memória. Farejaram mais um pouco, aqui e ali, e tornaram a se ver meses depois; quase instantaneamente, a vida tratou de abraçar forte um ao outro. Colaram-se voluntariamente pelo lado de dentro, os cãezinhos. Traziam consigo tantas histórias: bonitas, difíceis, não resolvidas, estranhas, engraçadas. Dividiram todas, ou quase todas. Descobriram-se muito, mas não completamente, porque completamente nem tem como ser. Planejaram encontrar um quintal com casinha de cachorro para dois. Para três. Para mais, quando viessem os outros filhotes. Planejaram surpresas que ainda nem foram reveladas, planejaram planejar coisas que ainda não sabiam o que eram, mas uma hora saberiam. Vez ou outra a proximidade fez rosnar, machucar, fugir, provocar do jeito que só cachorro sabe fazer. Do cão e da cadela, o lado de fora tentou ir mas o lado de dentro queria ficar. Chegou o ciclo em que houve muitos dias e noites em que estiveram sozinhos, esparramados com cara de cachorro sem dono. Outros dias saíram pra brincar como se nada tivesse acontecido. Outras vezes se divertiram cada um em seu canil, cada um na sua rua, cada um se virando com seu faro e seu instinto. Cachorro também sonha e acorda repentinamente, na madrugada, buscando rastros, farejando aqui e ali. Às vezes ia ele farejar a porta, à espera de que ela chegasse. Às vezes era ela que subia no sofá para olhar pela janela, quem sabe se... Nos passeios diários de cada um, trombavam-se às vezes nas esquinas. Trocavam latidos curtos. Alguns latidos eram mais agudos que outros, daqueles que fazem sangrar um pouco os ouvidos. Outros eram necessários. Outros latidos eram meio roucos e, embaralhados aos sons caóticos da cidade desses tempos, tornavam-se quase incompreensíveis. Cheiravam-se e iam embora, mas seus coraçõezinhos de cachorro despertavam sempre. Um dia, já faz tempo, ele latiu baixinho uma coisa a ela. E depois, sem que ele saiba direito, ela latiu uma coisa a ele: não me despeço, porque o que existe aqui dentro é muito forte.
Abanaram o rabo e seguiram abraçados, de alguma forma.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
convite, virar comigo, virar o ano e os dias distantes,
virar as estranhezas tropeços solidões faltas saudades.
dessas inevitáveis, virar o sentí-las sozinho;
das que são nossas, novos anos e paz adiante.
um pedaço daqui de dentro está agora na estrada,
vai levar e buscar
abraço disparado em silêncio, sorriso,
convite, de novo.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
tempo... e vida... (J. S.)
nas outras terras. aquelas próximas de onde só conheci uma lasca, um quase nada. de onde poderia descobrir sons, idiomas, gentes, movimentos, paisagens. climas. do alto dos seus oitenta e mais anos, aquele olhar sereno de quem não faz esforço para dizer as melhores palavras, escrevê-las com amor - e para o amor - e me fazer querer estar lá perto, ao seu lado, só um pouco, ainda que, agora, impossível para sempre. as janelas de avião e estradas com mais ou menos velocidade me despertam saudade da viagem repentina e curta. os nomes um do outro pronunciados tantas vezes e eu, distante e espectadora, querendo que aquela história não terminasse nunca. assim como tantas outras histórias. inclusive minhas. chorar de admiração faz bem.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
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.....de vidas e mortes.....
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