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De noite a cidade é mais bonita. Tão mais bonita. Foi quando começou a mudar. Chegada familiar ao mesmo tempo que incógnita, ecoando estranhamentos. Depois eram rumos incertos e idiomas variados, todos?, palavras trocadas, ladeiras-muitas-ruas-estreitas de luzes coloridas e cheiros, cheiros, cheiros. Crianças. Trens de todas as pequenas moradas, correndo por uma lente de vidro transparente, minha, que buscava imagens menos reais. Boas histórias, placas, gentes, noites claras de sol e vinho. Chãos de pedra e pequenas portas baixas, de verde antigo. História concreta nas águas próximas, nas paredes, nos poemas, história nos lugares e vidas contadas. Comunicação universal em felizes tentativas inesperadas. Pretéritos mais que perfeitos imperfeitos. Olhos nos olhos, nas filas, poltronas. O sim que poderia ser amedrontava tanto quanto o não que veio real. Parte do teto desaba sem metáfora. Frases mímicas quase formuladas. Movimento na sala, nas dúvidas, em cena, da rapidez que deixa impressão de ação diluída na memória. Música na rua, dança de quem entrar, e sair, e voltar, e fechar os olhos e ver-ouvir.Tinha palavras que despencavam pra lugar algum. Palavras de cera, papel, papelão, palavras duras de madeira antiga, que derretiam ao som das outras, virtualmente escritas. As suas, de antes, desfaziam-se em moléculas líquidas, pelos olhos incertos, sempre incertos, como que estrábicos interiores. Espaços de saudades muitas, teias e fragmentos. Palavras que saltam antes, sussurros ou gritos, matérias de ar. Madrugadas emaranhadas em travesseiros sem sono.
Qual é a desordem por aqui? A desordem de fato, a verdadeira, não a que aparece no lugar. Desordem daquelas de sangue e fungo, de corpo e incômodo, tem bula que assusta e insistindo resolve, ou disfarça. Mas cápsula pra outro lugar, de se entender, de raiz, cor/ação, de verdade, é poema não escrito, palavra que não existe, que vai sentir quando o resto der espaço.
Pequeno barco de fogo pelas águas compridas.
Correnteza forte carrega folhas de bananeira dispostas na forma de tradições milenares. Corre a chama-correnteza, fogo de luz, da noite entrar no dia na hora exata de sempre. Barquinhos vários, fogo em círculo, em cantos, em cânticos, em conchas soando limpas nas margens degraus das águas geladas, correntes pras mãos segurarem. Luz de fogo de proteção, ritual e crença ou imagem, linda imagem por si, onde embarcam histórias solúveis ou não nas chamas dos deuses, olhos das gentes, águas de luz.
A vida me espanta. Espanto para-pelo incompreensível. Imagem que não vi fotografada na noite de sono dífícil. Quem fica, como fica? Envolvimento não-meu, busca de sentido, encontro como cumplicidade humana. Saber como (des)anda o interior de qualquer ser? Nem sempre se conhece todo desespero. Que a escolha seja paz, na forma vaporosa que for, ilusória ou concreta, real.
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Aquela criança, pequeno menino, mais-que-especial, reviverá o alívio. Algum alívio, entre os sorrisos dos olhinhos claros que, definitivamente, aprenderam a andar, correr, cair, para todas as direções. Vida.
Realidade incompreendida, o retorno. Mas ver o que foi tem gosto, cheiro, é história e corre por dentro como versos gravados. Não há tempo de ver o passado se transformar nele mesmo, a não ser de repente, quando vai longe, quando os rostos e corpos revistos mudaram, quando finalmente hoje é tempo diferente, embora passado a cada segundo - passado. Tempo móvel. Acelerado. Memória em espiral. Olhar para eu-aquela, personagem que não sabia de seus futuros múltiplos, hoje também já atrás. Saber mais que ela sobre o que viveria, incertas vidas, não sabem as próximas. Óbvio panorama interior. Inútil e inevitável. Acidental.
Ela, sozinha como sempre, como se nunca tivesse sido diferente. Poderia ser, mas de que importa o "se" quando o tempo futuro deixou de ser depois, e já tornou-se agora? Abandonada como desde os tempos conhecidos. Há escolhas entre a sanidade e a loucura? Se hoje o mundo seu, incerto e próprio, aberto pelas ruas e espaços comuns, for abrigo e conforto, nos pés machucados, sacolas pesadas de ar e a cabeça coberta por algo que talvez não se possa mais acessar? Ou, gota a gota, voltar. Desde quando perdeu-se o tempo de aceitar, aceitarmos, aceitarem? Qual o poder e a certeza de que o caminho deveria ser outro? Aqui, receio de pensamentos levianos. E das impotências.
Despencava como nos sonhos recorrentes, onde a iminência do contato com o chão fazia acordar, mas era só queda sem fim. Era o espaço do tempo-depois escuro, sem imaginação. Sem graça ou ação, sem existência. Encontrava vontades como que por trás das grades, a brincadeira das dualidades ficando verdade. Enquanto isso, a esperavam o mar e os suores. As telas viciantes tomavam conta do tempo que se perdia em pensamentos estancados, os abismos perdidos, os riscos amedrontados, impulsos guardados em lugar algum, em algum lugar. Seus desenhos apagados nos humores secos. Sua imagem sem contorno.
...o primeiro do novo ou velho início de tempo...
escolhas para um lado e para o outro
e as vontades e as opiniões
e os riscos e as necessidades
e o tempo de cada um e o meu tempo
gritos internos de ansiedade e expectativa
resultados e percursos
fugas
abismos nos pulos
profundos-no-entanto-não-saem-da-margem
reencontrar
e
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Escondido. Antigo. Passeava pelos corredores do interior como as lembranças. Tinha os mesmos olhos, mas outros tons no verbo de olhar. Tinha as mesmas vozes, as mais de umas e outras, mas outras poucas palavras. Pertencia ao universo eterno das sensações perenes: aos pleonasmos. Sustos esperados. Listas paralelas em direção a imagem alguma. Rampa abaixo e o tempo se dissolveu.
o que há por dentro grita e esgarça ~ range sorri ironiza ~ é de sangue e suave cor ~ não tem matéria ~ implode-nos em sensação e imagens ~ existe como o tempo ~ presente, passado e desconhecidos, todos ~ mergulha-nos em torno de todas as mesmas diferenças ~ ária.
Há o salto. Parece estar na nova vida.
(por um filme, sua beleza terrível e quase insuportável dor)
sempre, nunca sabe por onde caminhar, ou pensa que. todas as certezas pelos menores espaços de tempo. muda em instante imediato e desaba nos vãos sem fim, circulares, fundos, invisíveis e sensíveis a qualquer toque. receia espaços escondidos, mas receia ainda mais que não existam. e se...? experimenta, não conclui. recupera o que dizia o corpo de um pouco atrás. ouve pequenas mordidas de lembranças mútuas. pulsa tintas. e tintos. dedica-lhe o tempo do pensamento e da lembrança, de perto querer longe, de longe querer perto, de sonho palpável e projeção. escreve diários internos que relê transparente. representa sorriso esganiçado no espaço dedicado a isso, e não diz o quanto a mentira composta traz de si com atropelo. quando pensa que a implosão fará dela farelos de expectativas, expulsa-se, para que retorne.
Espaço rasgado, esgarçado, por nada Buraco que não sara Respiro apertado, tanto espaço vazio pra tão pouco espaço Fundição Implosão Des-entendimento-próprio Sorrisos tortos Abraços necessários Nada que se compreenda Tudo que se confunda Que te confunda Que sempre confunda E os nomes que preferimos não escutar Que seja preciso estar perto Sem saber de coisa alguma.
É que ali ele era metade, e só. Antes dizia que não, como se a entrega que gostava de citar estivesse presente nos olhos dos dois. E apesar da véspera, e da véspera dos outros dias, e das surpresas e conquistas, resolveu ser metade. O restante entregou para preparar a lista das novas possibilidades. Julgou-a parede sem humanidade e sem presença? As circunstâncias fariam dela alguém invisível e ausente? Ela sentindo-se pequena como há muito não era. Não pelas regras, sim pelo patético inexplicável de tudo. Como, normal? Ela jogou a resposta para falas repetidas, procurou amansar a mágoa, a estranheza. As palavras procuram criar o espaço que falta na garganta fechada.